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Educação, crise climática e racismo ambiental: desafios e caminhos para redes resilientes

A crise climática já deixou de ser um problema abstrato para se tornar uma experiência cotidiana em muitas escolas brasileiras. Chuvas intensas, ondas de calor, enchentes e deslizamentos têm provocado a suspensão de aulas, a perda de materiais pedagógicos, danos à infraestrutura e, em casos mais graves, a interrupção prolongada do direito à educação. Esses impactos, porém, não se distribuem de forma igual: eles incidem com mais força sobre territórios marcados por desigualdades históricas, revelando a estreita relação entre crise climática, educação e racismo ambiental.

O racismo ambiental pode ser compreendido como o conjunto de práticas e omissões que faz com que populações negras, povos tradicionais (como ribeirinhas e quilombolas) e comunidades periféricas sejam mais expostas a riscos ambientais, como as principais formas de poluição, e tenham menos acesso a políticas de proteção. No campo educacional, isso se expressa no fato de que muitas escolas localizadas em áreas vulnerabilizadas funcionam em prédios precários, sem ventilação adequada, saneamento básico ou estruturas capazes de resistir a eventos climáticos extremos. Quando ocorrem desastres, essas unidades tendem a ser as primeiras a fechar e as últimas a retomar plenamente suas atividades.

As consequências pedagógicas são profundas e muito danosas para os estudantes. A suspensão recorrente de aulas compromete o calendário letivo, fragiliza vínculos escolares e aprofunda desigualdades de aprendizagem, especialmente para alunos que já enfrentam barreiras socioeconômicas e raciais. Além disso, o aumento das temperaturas afeta a concentração e o bem-estar de alunos e professores, enquanto enchentes, queimadas e deslizamentos geram deslocamentos forçados e a interrupção do transporte de estudantes, impactando a permanência escolar e a saúde física e emocional das comunidades educativas.

Diante desse cenário, preparar as redes de ensino para a crise climática exige mais do que respostas emergenciais. É necessário planejamento de longo prazo (um baita desafio na cultura da gestão pública, no Brasil), com investimentos articulados entre políticas educacionais e ambientais. Isso inclui mapear riscos climáticos nos territórios onde as escolas estão inseridas, priorizar intervenções em áreas mais vulneráveis e incorporar critérios de justiça climática (princípio que busca distribuir de forma equitativa os custos e benefícios das ações ambientais) na alocação de recursos.

A adaptação das escolas passa, também, por melhorias na infraestrutura, como adequação de projetos que olhem para a questão de conforto térmico, sistemas de drenagem, arborização, acesso à água potável e espaços seguros para acolhimento em emergências. Paralelamente, a formação de gestores e educadores é fundamental para que compreendam os impactos da crise climática sob uma perspectiva racializada, reconhecendo como o racismo estrutural aprofunda sofrimentos e vulnerabilidades, e orientando práticas pedagógicas comprometidas com a equidade.

Outro caminho estratégico é fortalecer a escola como espaço de produção de conhecimento e de mobilização comunitária. Projetos pedagógicos que integrem Educação Ambiental, Direitos Humanos e Relações Étnico-Raciais podem contribuir para que estudantes compreendam a crise climática não apenas como um fenômeno natural, mas como um processo atravessado por escolhas políticas e sociais. Aliás, a Educação Ambiental, que é lei no Brasil, desde 1999, precisa ser reforçada, valorizada e efetivamente aplicada em todos os níveis educacionais. Além disso, sabe-se, mais do que nunca, que é fundamental valorizar saberes locais e tradicionais, especialmente de comunidades quilombolas e indígenas, para que a educação se torne um vetor de resiliência territorial.

Em 2025, o Brasil apresentou, na COP30, a Política Nacional de Educação Ambiental Escolar (Pneae), que articula educação, meio ambiente e clima no âmbito escolar. Essa política amplia a formação de profissionais, fortalece a cooperação federativa entre União, estados e municípios, e apoia as redes de ensino na construção de planos de resiliência escolar e práticas pedagógicas sustentáveis. Espera-se que esta política seja uma ação concreta de como a educação está sendo integrada às metas nacionais de adaptação às mudanças climáticas, com foco em equidade, inclusão e valorização dos saberes científicos e tradicionais. 

Também vale ressaltar a iniciativa da sociedade civil organizada, coordenada e lançada, em 2025, pelo Todos Pela Educação, cujo documento propõe recomendações baseadas em evidências, experiências e marcos normativos, organizadas em quatro eixos estratégicos: governança; financiamento e infraestrutura; equidade e justiça climática; currículo e formação docente. Esses eixos visam fortalecer a capacidade institucional dos sistemas de ensino para antecipar riscos, garantir continuidade educacional e responder de maneira coordenada e equitativa às emergências.

Portanto, enfrentar os impactos da crise climática na educação implica reconhecer que não há neutralidade nos efeitos do clima. Redes de ensino resilientes são aquelas capazes de articular planejamento, investimento e justiça social, garantindo que nenhuma escola — e nenhum estudante — seja deixado para trás. Integrar o combate ao racismo ambiental às políticas educacionais e conhecer melhor esse problema, por meio de dados e evidências, é um passo decisivo para assegurar o direito à educação em um contexto de mudanças climáticas cada vez mais intensas.

Vidal Dias da Mota Junior Cientista Social – Pós-Doutor em Ciências Ambientais e Diretor Executivo do Instituto DACOR
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